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[O Nosso Idioma] - Pontuação

Ao arrepio da norma

Maria Regina Rocha*

Na frase «Estava precioso: tinha fígado e tinha moela: o seu perfume enternecia: três vezes fervorosamente, ataquei aquele caldo.», o uso dos dois pontos não segue a norma.

A obra A Cidade e as Serras foi publicada em 1901, um ano após a morte de Eça de Queirós, que faleceu antes de ter conseguido fazer a revisão total das provas desta obra. Assim, embora na primeira edição a pontuação da frase seja a que é acima transcrita, há edições em que a frase apresenta a seguinte pontuação:

«Estava precioso: tinha fígado e tinha moela; o seu perfume enternecia; três vezes, fervorosamente, ataquei aquele caldo.».

Assim, quanto à pergunta que faz, há duas situações a considerar:

1. Os dois pontos podem anunciar uma frase autónoma constituída por um discurso directo ou por uma citação;

2. Os dois pontos podem introduzir uma enumeração explicativa, um esclarecimento, uma síntese ou uma consequência do que fora enunciado (segmentos estes iniciados por letra minúscula).

No primeiro caso, é admissível que haja dois pontos nessa frase autónoma ou nessa citação que fora anunciada pelos primeiros dois pontos.

Exemplo:

«Miguel Torga, no seu Diário I, faz a seguinte reflexão sobre o acto de escrever: «Aqui na minha frente a folha branca do papel, à espera; dentro de mim esta angústia, à espera: e nada escrevo».

No segundo caso, não é admissível o uso de outros dois pontos, pois esse segmento textual que surge após os dois pontos faz parte integrante do enunciado inicial.

Exemplos retirados da obra Os Maias, de Eça de Queirós:

«O mulherão da Concha rosnou secamente os buenos dias: parecia de mau humor, pesada do almoço, amodorrada para ali, sem dizer uma palavra, com os cotovelos fincados na mesa, os olhos pestanudos meio cerrados, ora fumando, ora palitando os dentes.» (capítulo VIIII).

«Quando se voltou, Miss Sara estava diante dele, vestida de preto e muito corada: era uma pessoa simpática, redondinha e pequena, com um ar de rola farta, os olhos sentimentais, e uma testa de virgem sob bandós lisos e loiros.» (capítulo IX).

A frase em causa — «Estava precioso: tinha fígado e tinha moela; o seu perfume enternecia; três vezes, fervorosamente, ataquei aquele caldo.» — é iniciada por uma oração em que é feita uma apreciação sobre o caldo («Estava precioso»), seguindo-se, após os dois pontos, não só uma explicação dos motivos que levavam àquela apreciação (o fígado, a moela, o perfume) como a evidente consequência («três vezes fervorosamente, ataquei aquele caldo»).

Não se justifica o emprego de dois pontos após a palavra «moela», introduzindo a oração «o seu perfume enternecia», pois não era o perfume do fígado e da moela que enterneciam, mas o do caldo (sujeito subentendido da oração inicial). Também não se justifica o emprego dos dois pontos após a palavra «enternecia», introduzindo a última oração, pois o fervoroso ataque ao caldo não foi consequência apenas do perfume, mas do facto de todo o aspecto do caldo fazer com que ele fosse pressentido (seguindo-se a confirmação) como «precioso». Há quem invoque facto de, em alguns textos de escritores do século XIX (nomeadamente em Eça de Queirós), haver uma ou outra ocorrência de emprego de dois pontos num segmento textual introduzido por dois pontos que não corresponde à situação acima apresentada no ponto 1. Seria no entanto necessário verificar se isso é um padrão do escritor em causa ou uma simples gralha, muito natural, dada a semelhança de forma entre os dois pontos (:) e o ponto e vírgula (;), ou, mesmo, uma intencional utilização por motivos de natureza estilística.

Concluindo, como norma, é possível o emprego de dois pontos após dois pontos apenas se esse sinal surgir numa frase autónoma constituída por um discurso directo ou por uma citação, mas tal não deverá ocorrer se os dois pontos introduzirem uma enumeração explicativa, um esclarecimento, uma síntese ou uma consequência do que fora enunciado (segmentos estes iniciados por letra minúscula).

 

Cf. Dois-pontos dentro de dois-pontos + Uma possibilidade estilística do código literário

02/05/2012

Sobre o autor

* Maria Regina Rocha, licenciada em Filologia Românica pela Universidade de Lisboa; mestrado em Ciências da Educação, pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra e doutoranda na mesma; professora na Escola Secundária José Falcão, em Coimbra; larga experiência pedagógica no ensino politécnico (Escola Superior de Educação de Coimbra) onde lecionou várias disciplinas na área da Língua Portuguesa. Coautora, entre outros livros, de Cuidado com a Língua!, Assim é que é falar! 201 perguntas, respostas e regras sobre o português falado e escrito, e A Gramática – Português – 1.º Ciclo.

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