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[Pergunta | Resposta]

A aplicação do termo valência

[Pergunta] Tenho uma dúvida ainda não sanada. Em sua obra Gramática de Valências, Mário Vilela diz que o termo valência não deve ser aplicado nem aos verbos auxiliares, nem aos verbos copulativos (como ser e estar), nem aos verbos funcionais. A minha dúvida maior é com relação aos verbos copulativos e auxiliares. Por que o autor diz que a valência verbal não se estende a esses verbos? Ainda não tive uma explicação que sanasse a minha dúvida.

Ronaldo Nogueira :: Professor :: Vigia, Brasil

[Resposta] Tentaremos ser o mais claros possíveis, para que não haja dúvidas. Comecemos por citar o Dicionário Houaiss, a propósito do termo valência com a significação pretendida (sublinhado nosso): «Valência Rubrica: linguística, conjunto dos argumentos que entram na construção de um sintagma ou sentença, e cujo número, tipo e função são determinados por um predicador, ger[almente] o verbo; assim, chover tem valência zero, ao passo que correr é monovalente, ver é bivalente, e dar é trivalente.»

Ora, explicando em pormenor esta definição, entende-se que existem várias classes de predicadores verbais. Veja-se os seguintes exemplos (destacamos os predicados a negrito e colocamos os argumentos entre parêntesis rectos):

1. Verbos de valência zero ou de zero argumentos:

a) Amanheceu.

b) Trovejou.

c) Choveu.

2. Verbos monovalentes ou unários (de um argumento):

a) A [Maria] correu.

b) A [Maria] gritou.

c) A [Maria] espirrou.

O único argumento deste tipo de verbos é o sujeito (também chamado argumento externo, pois não é complemento sintáctico do predicador, nestes casos, do verbo).

3. Verbos bivalentes ou binários (de dois argumentos)

a) A [Maria] gosta [do João].
b) A [Maria] matou [a mosca].
c) A [Maria] telefonou [ao Pedro].

4. Verbos trivalentes ou ternários (de três argumentos)

a) A [Maria] deu [o livro] [ao João].

b) A [Maria pôs [o livro] [na mesa].

c) A [Maria] emprestou [a caneta] [ao Pedro].

Mas repita-se que o predicador/ predicado ou palavra predicativa é «geralmente o verbo», mas nem sempre, ou seja, o predicador (na sua acepção semântica) «recobre qualquer palavra que tenha argumentos, lugares vazios ou valência própria» (Mateus et alii, 2003:183). Assim, o predicador pode ser, por exemplo:

5. um adjectivo

a) [O café] está frio.
b) [O livro] é pesado.

6. um nome/estrutura nominal

a) [O gato] é um felino.
b) [O João] é um bom amigo.

Nestes casos, o elemento verbal é um verbo copulativo, cuja função é exclusivamente ligar o sujeito e o nome predicativo do sujeito, este último, como o próprio nome indica, é o predicador do enunciado, ou seja, é o elemento que atribui propriedades e estabelece relações entre entidades [no exemplo 5 a) atribui-se a propriedade de «estar frio» à expressão nominal «o café»].

Relativamente aos verbos auxiliares, tal como os copulativos, também eles não predicam, nesse tipo de locuções verbais, tal como o nome indica, há verbos auxiliares e verbos principais, e são normalmente os verbos principais que predicam, não os auxiliares, que apenas veiculam ideias, acrescentam informação, indicam modalidade, etc.

Finalizemos com alguns exemplos:

i. A [Maria] tem de telefonar [ao Pedro]. (O auxiliar veicula uma ideia de obrigatoriedade)

ii. A [Maria] vai telefonar [ao Pedro]. (O auxiliar veicula uma ideia de futuro)

iii. A [Maria] tem telefonado [ao Pedro]. (O auxiliar veicula uma ideia de reiteração)

Esperamos ter elucidado o suficiente sobre esta questão. Se assim o entender, poderá também consultar a resposta Sobre as tipologias sintácticas dos verbos, onde é feita uma breve análise de exemplos com diferentes valências/estruturas argumentais de predicados.

Ao seu dispor.

Ana Carina Prokopyshyn :: 09/10/2009

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